África construiu fortes relações com a Ásia antes da chegada dos europeus

Se durante muito tempo os estudos sobre a África focaram na sua relação com a Europa , o crescimento recente do campo de estudos africanistas no Brasil veio acompanhado de uma mudança de perspectiva, mais global e comparativa. Contrariando a visão eurocêntrica , que traz a ideia de uma África atrasada e dependente, novas descobertas apontam para relações comerciais, sociais e religiosas construídas pelos próprios africanos com outros povos, especialmente os do subcontinente indiano, muito antes da chegada dos europeus no século 15.



Essa visão, que destaca o protagonismo africano, é a base do livro África, margens e oceanos: perspectivas de história social, lançado em maio pela Editora da Unicamp.

Integrante da Coleção Várias Histórias, cujo propósito é divulgar pesquisas recentes a partir da perspectiva da história social, o livro foi organizado por Lucilene Reginaldo, doutora em história social e professora no Departamento de História da Unicamp, e Roquinaldo Ferreira, doutor pela Universidade da Califórnia e professor no Departamento de História da Universidade da Pensilvânia. Os 16 textos que compõem uma obra apresentam a excelência e a diversidade da pesquisa atual sobre o passado africano.


Os trabalhos reunidos tratam da experiência histórica do continente africano às margens ou em conexão com os oceanos Atlântico e Índico entre os séculos 17 e 20. Como guias, duas intenções evidentes são compartilhadas entre os autores e autoras: o interesse em trocas, conexões e contatos que considera o protagonismo dos africanos nos processos e relações criadas por meio da ligação com os dois oceanos; e o diálogo entre a produção africanista brasileira e internacional, feito em centros de pesquisa norte-americanos, europeus ou africanos.


O objetivo comum é situar a África nos circuitos globais de transportes, fluxos migratórios, difusão de conhecimento e práticas religiosas , especialmente como anteriores à presença dos europeus.


África, margens e oceanos: perspectivas de história social, organizado por Lucilene Reginaldo e Roquinaldo Ferreira (Editora Unicamp, 560 páginas, R $ 100) (Foto: Divulgação)

Identidades africanas e ensino da África nas escolas

O livro é organizado em quatro eixos temáticos: a primeira evidência dos processos de trocas culturais e formação de identidades múltiplas construídas por meio dos oceanos Atlântico e Índico em razão do comércio de longa distância; o segundo reúne escritos sobre o surgimento de diferentes sujeitos, identidades coletivas e práticas de promoção e culturais nas duas margens do Atlântico.


O terceiro eixo expõe várias dimensões da agência dos africanos, considerando hierarquias em contextos coloniais e questões de classe , gênero e etnia; e o resgata aspectos que caracterizam o ensino e a pesquisa sobre a história da África no nosso país, dialogando com a Lei nº10.639 de 2003, que propostas novas diretrizes curriculares para o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas brasileiras.


África, margens e oceanos dá ênfase à história social e ao protagonismo dos africanos, destacando referências intelectuais e contornos sociais que demarcam a produção sobre história da África no Brasil. É um livro que oferece um panorama da produção recente africanista, colocando em foco a África e suas relações com outros continentes, mediadas pelas águas que a banham.


Fonte Revista Galileu

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